15 de maio de 2011



O sinal de positivo que junta o nome de Ben com o de Vesper para formar o nome da banda não é só uma questão estética. O símbolo matemático representa mais do que o matrimônio entre Ben e Vesper Stamper, ele marca a união das vozes do casal, que foge do típico dueto e cria diversas formas de usá-lo, exemplificadas mais uma vez, agora no novo disco, Honors.

As vozes, além de não cairem numa rotina, possuem sonoridades que se completam. Em Honors, elas exercem diversos papéis. Seja brincando no diálogo inicial de Holly Home, com Vesper suavizando a voz de barítono de Ben em Knee-hi Wall, ou ao contrário, com ele brincando de aparecer e sumir para pontuar simplicidade feminina no vocal dela.

Sonoramente, a dupla, que conta com amigos para preencher as melodias do álbum, traz um clima indie pop, com momentos mais animados, que me lembrou The Owls, e outros mais calmos, que me trouxe à memória outra parceria, a de Isobel Campbell com Mark Lanegan. As canções são belas e sabem a hora certa de “estranhar” um pouco. Mas a força de Honors está mesmo belo casamento (não consegui fugir do trocadilho) das vozes.


Bigott - This is the Beginning of a Beautiful Friendship (2010)

Acredito muito que a grande diferença da mistura de folk, twee e pop que Bigott traz no seu último disco, This is the Beginning of a Beautiful Friendship, vem da sua latinidade. Se fosse um sueco, um britânico ou um canadense, por exemplo, por mais que tentassem, ainda sentiríamos aquele sussurro frio no ouvido ao dar o play.

Mas o espanhol Borja Laudo, essa figura meio freak sob o apelido de Bigott, com sua voz grave e sotaque carregado, traz nas suas letras estranhas, íntimas, com inspiração em seus sonhos, uma simpatia que quebra a frieza mesmo nas canções mais “sérias”. O violão dá a segurança para as canções, que vão recebendo coloridos enfeites sonoros, como ukulele, teclado, instrumentos de sopro e percussão.

Dá pra dizer que é uma espécie de folk tropical. Há uma pequena diferença em relação ao disco anterior, Fin (2009). This is the Beginning of a Beautiful Friendship parece ter recebido um cuidado maior na produção e tem um clima um pouquinho mais pop. Esse gordinho barbudo faz um som muito simpático de ouvir.

29 de janeiro de 2010



O bom da música é que não há fórmulas. Não adianta juntar bons músicos, com instrumentos interessantes, um vocal bonito e decidir "vamos fazer um indie folk divertido", por exemplo. Acho que já usei esse adjetivo para algumas bandas, mas a sinceridade é o item primordial. Ohbijou junta aqueles itens citados acima de forma sincera. O resultado é a beleza de Beacons.

Os sete amigos de Toronto preenchem o álbum como quem decora calmamente uma parede com quadros de diferentes formatos, mas procurando uma unidade, nem que para isso algum deles precise receber menos destaque de vez em quando. Não há competição. A bela voz de Casey Mecija apenas dá firmeza e colore a textura do disco sem agredir.

As canções conseguem misturar beleza e diversão, numa gangorra de climas. Sobe a animação e a tristeza fica discreta. Para cima com a melancolia e a alegria fica tímida. As letras discutem problemas pessoais, analisam relacionamentos e histórias com bastante referência a aspectos da natureza como estações e elementos. É um disco cheio de elementos trançados em uma linha firme e bonita.

26 de janeiro de 2010


First Aid Kit - The Big Black and The Blue (2010)

Quatro leves toques no violão e duas vozes se arrastam afinadas, entrelaçando-se no ar, encantando os ouvidos sem precisar pedir licença para entrar e declamando "in the morning, on your journey to the sea..." É assim que começa The Big Black and The Blue, primeiro álbum das irmãs suecas do First Aid Kit, Klara e Johanna Söderberg, de 16 e 19 anos. E é só isso que ele precisa para ganhar crédito e ser ouvido até o fim.

A ligação entre as duas irmãs não é apenas sanguínea. A parceria entre violão e piano, a ciranda entre violão e ukulele, e principalmente as vozes que se prolongam nas sílabas da canções criam uma sintonia hipnotizante. O folk que brinca entre climas calmos, neutros e animados é maduro e as letras trazem cenários interessantes de explorar, como em "Ghost Town" (And I remember how you told me all you wanted to do / That dream of Paris in the morning or a New York window view / I can see it now you're married and your wife is with a child / And you're all laughing in the garden and I'm lost somewhere in your mind) ou em "Hard Believer" (Well I see you've got your bible your delusion imagery / Well I don't need your eternity or your meaning to feel free).


21 de janeiro de 2010



Há alguns meses, fui em uma cachoeira com uns amigos. A trilha da floresta era bem fechada, úmida e escura. Quanto mais longe eu estava, quanto mais as árvores pareciam me abraçar e quanto mais eu pensava que eu poderia viver daquele jeito, melhor eu me sentia. O engraçado é que agora, enquanto o cursor piscava em um paragráfo em branco, lembrei que cantei, durante a caminhada, canções da Basia Bulat, do primeiro disco, Oh, My Darling. Na água gelada, fiquei calmamente parado um tempo, cantando automaticamente, porque na minha cabeça os pensamentos estavam mais agitados que a água que caía. Agora, com o fone de ouvido bem alto, enquanto o novo álbum da Basia Bulat, Heart Of My Own, toca pela terceira vez seguida, eu me sinto próximo daquele sentimento que tive na cachoeira.

Na canção "Sugar and Spice", Basia canta: "but I listen to you, and your voice takes me out of my skin". O clima folk de Heart Of My Own tem esse poder de desprender a imaginação do corpo. O amadurecimento das canções e a segurança ao cantar pode ter sido resultado de uma experiência que Basia tem citado como fundamental para o novo trabalho. Ela passou alguns dias em uma cidade chamada Dawson City, no estado do Yukon, no Canadá, próximo ao Alasca. O lugar é praticamente deserto e o silêncio da natureza serviu de inspiração para diversas músicas. O eco de paisagens desertas trazem peso ao disco. Todos os pensamentos que devem ter passado pela cabeça da cantora enriquecem as letras.

E apesar de o silêncio ser companheiro de lugares afastados como a minha cachoeira ou a cidade canadense escolhida por Basia, as melodias não trazem um possível dueto simples de voz e violão apenas. A densidade de uma floresta fechada e úmida aparece nas canções, com a percussão dividindo o papel principal com o violão e com a bela e forte voz da cantora. Os violinos, pianos, autoharpa e ukulele dão ainda mais coesão para a obra. Heart Of My Own é minha nova floresta portátil.

19 de janeiro de 2010



Certas bandas precisam construir seu lugar no ouvido da gente. Demorei para me encantar com o primeiro disco do Vampire Weekend. No início de 2008 falavam deles como uma das apostas daquele ano. Lembro de ter simpatizado, mas não dei o braço a torcer tão facilmente. Hoje, quando eu chego do trabalho, no calor dessa cidade, e ainda preciso lavar a louça ou a roupa que se acumula na lavanderia, ligo a caixa de som bem alta e coloco Vampire Weekend para lutar com as canções evangélicas do vizinho.

Meu arsenal ganhou recentemente mais 10 boas armas. O novo disco, Contra, mostra uma linha inteligente para o perigoso segundo álbum da carreira. O Vampire Weekend avançou (leia-se amadureceu) no campo de batalha, mas com a mesma estratégia. A guerra contra o tédio e a desanimação continua armada com guitarras aceleradas e agudas, com a ótima acentuação vocal de Ezra Koening, com os tiros certeiros do teclado e a força do baixo e bateria. O hino do exército vem com sacadas jovens e espertinhas. Se continuarem nessa linha, vão fincar bandeira no ouvido inimigo.

Caso você precise vencer logo a guerra, pule direto para as faixas "Cousins" e "Holiday". Se tiver tempo de descansar nas trincheiras, procure algo mais calmo como "Horchata", "I Think Ur A Contra" e "Taxi Cab".